Componente: Física | Ano: 2º Ano do Ensino Médio | Unidade: Termodinâmica
O comportamento dos gases aparece em situações muito próximas do nosso cotidiano: no enchimento de pneus, no funcionamento de seringas, em aerossóis, em balões, em motores e até na respiração. Para estudar esses fenômenos, a Física utiliza um modelo chamado gás ideal. Ele não representa perfeitamente todos os gases reais, mas fornece previsões muito úteis quando a pressão e a temperatura não são extremas.
Essa abordagem está relacionada à proposta da BNCC de analisar como os gases respondem a alterações de pressão e temperatura, utilizando modelos científicos para explicar e prever fenômenos naturais e tecnológicos. (basenacionalcomum.mec.gov.br)
1. O que é um gás ideal?
Um gás ideal é um modelo físico baseado em algumas hipóteses simplificadoras:
- as partículas do gás são muito pequenas em comparação com o volume ocupado pelo gás;
- as partículas estão em movimento contínuo e desordenado;
- as colisões entre partículas e com as paredes do recipiente são aproximadamente elásticas;
- fora dos instantes de colisão, desprezam-se as forças de interação entre as partículas;
- o gás está suficientemente afastado das condições em que ocorreria liquefação.
Na prática, muitos gases comportam-se aproximadamente como gases ideais em condições moderadas de temperatura e pressão. O modelo deixa de ser uma boa aproximação quando o gás está submetido a pressões muito elevadas ou temperaturas muito baixas, próximas da condensação.
As grandezas principais que descrevem um gás são:
| Grandeza | Símbolo | Unidade do SI | Significado |
|---|---|---|---|
| Pressão | p | pascal (Pa) | efeito das colisões das partículas sobre as paredes |
| Volume | V | metro cúbico (m³) | espaço ocupado pelo gás |
| Temperatura absoluta | T | kelvin (K) | relacionada à energia cinética média das partículas |
| Quantidade de matéria | n | mol | quantidade de partículas do gás |
2. Temperatura: Celsius não é a escala adequada nas equações dos gases
Nas leis dos gases, deve-se usar a temperatura absoluta, medida em kelvins. A conversão entre Celsius e kelvin é:
T(K) = θ(°C) + 273,15
Em exercícios escolares, muitas vezes utiliza-se 273 como aproximação:
- 0 °C ≈ 273 K;
- 27 °C ≈ 300 K;
- 100 °C ≈ 373 K.
Não se deve usar diretamente uma temperatura negativa em graus Celsius na equação dos gases. Por exemplo, −23 °C corresponde aproximadamente a 250 K, e não a −23 K.
3. A equação de estado do gás ideal
A relação entre pressão, volume, temperatura e quantidade de matéria é dada pela equação de Clapeyron, também chamada de lei dos gases ideais:
pV = nRT
Nessa expressão:
- p é a pressão absoluta, em pascals;
- V é o volume, em metros cúbicos;
- n é a quantidade de matéria, em mol;
- R é a constante universal dos gases;
- T é a temperatura absoluta, em kelvins.
Usando as unidades do Sistema Internacional, adota-se:
R ≈ 8,314 J/(mol·K)
Como 1 J = 1 Pa·m³, as unidades são compatíveis com a equação. A constante dos gases está relacionada à constante de Boltzmann pela expressão R = NAk, em que NA é a constante de Avogadro e k é a constante de Boltzmann. (openstax.org)
Pressão absoluta e pressão manométrica
A equação do gás ideal deve ser aplicada com a pressão absoluta. A pressão atmosférica precisa ser considerada quando o valor fornecido é uma pressão manométrica, como aquela indicada em muitos calibradores de pneus.
A relação é:
pabs = pman + patm
Se um pneu apresenta 2,0 bar de pressão manométrica e a atmosfera exerce aproximadamente 1,0 bar, sua pressão absoluta é próxima de 3,0 bar. Em muitos exercícios introdutórios, entretanto, a pressão fornecida já é considerada absoluta. É importante verificar o enunciado.
4. Lei geral dos gases
Se a quantidade de gás permanece constante, podemos comparar dois estados do sistema:
p1V1/T1 = p2V2/T2
Essa relação é útil quando um gás sofre uma transformação e queremos descobrir uma das variáveis no estado final. Ela só pode ser usada diretamente quando não há entrada nem saída de gás, isto é, quando a quantidade de matéria permanece constante.
5. Principais transformações gasosas
5.1 Transformação isotérmica: temperatura constante
Na transformação isotérmica, a temperatura permanece constante. Para uma quantidade fixa de gás:
pV = constante
ou
p1V1 = p2V2
Assim, pressão e volume são grandezas inversamente proporcionais. Se o volume diminui pela metade, a pressão dobra, desde que a temperatura permaneça constante.
Exemplo cotidiano: ao pressionar lentamente o êmbolo de uma seringa com a ponta fechada, o volume disponível para o ar diminui e a pressão interna aumenta. Se o processo for suficientemente lento, há tempo para o gás trocar calor com o ambiente, aproximando-se de uma transformação isotérmica.
5.2 Transformação isobárica: pressão constante
Na transformação isobárica, a pressão permanece constante. Nesse caso:
V/T = constante
ou
V1/T1 = V2/T2
Volume e temperatura absoluta são diretamente proporcionais. Ao aquecer um gás em um recipiente com êmbolo móvel e pressão externa constante, o volume tende a aumentar.
Exemplo cotidiano: um balão de festa pode aumentar de volume quando aquecido, desde que sua estrutura permita a expansão e a pressão interna permaneça aproximadamente equilibrada com a pressão externa.
5.3 Transformação isovolumétrica ou isocórica: volume constante
Na transformação isovolumétrica, o volume permanece constante. Portanto:
p/T = constante
ou
p1/T1 = p2/T2
Pressão e temperatura absoluta são diretamente proporcionais. Se um recipiente rígido e fechado é aquecido, a pressão do gás aumenta.
Exemplo cotidiano: deixar uma lata de aerossol próxima a uma fonte de calor é perigoso porque, em um recipiente praticamente rígido, o aumento da temperatura pode elevar significativamente a pressão interna. Por segurança, não se deve realizar experimentos com aerossóis ou aquecimento de recipientes fechados.
6. Exemplo resolvido
Problema: Um gás ocupa 2,0 L a 27 °C e pressão constante. Qual será o volume do gás quando sua temperatura atingir 127 °C?
Dados:
- V1 = 2,0 L;
- T1 = 27 + 273 = 300 K;
- T2 = 127 + 273 = 400 K;
- pressão constante.
Como a transformação é isobárica:
V1/T1 = V2/T2
Isolando o volume final:
V2 = V1T2/T1
V2 = 2,0 × 400/300 = 2,67 L
Resposta: o gás ocupará aproximadamente 2,67 L. Observe que não se deve fazer a razão usando 127/27, pois as temperaturas precisam estar em kelvins.
7. Como interpretar gráficos?
Os gráficos ajudam a visualizar as relações entre as grandezas:
- em um gráfico p × V isotérmico, aparece uma curva decrescente, aproximadamente uma hipérbole;
- em um gráfico V × T isobárico, usando kelvins, obtém-se uma reta que passa pela origem;
- em um gráfico p × T isovolumétrico, usando kelvins, também se obtém uma relação linear.
Se a temperatura for representada em graus Celsius, a reta de uma transformação isobárica não passará pela origem do gráfico, pois a origem física da proporcionalidade está associada ao zero absoluto, 0 K, aproximadamente −273,15 °C.
8. Limites do modelo
O modelo de gás ideal é uma aproximação. Gases reais possuem partículas com volume próprio e forças de atração ou repulsão entre elas. Essas características tornam-se mais importantes:
- quando a pressão é muito alta;
- quando a temperatura é muito baixa;
- quando o gás está próximo da condensação;
- quando o volume disponível é pequeno e as partículas ficam muito próximas.
Portanto, a equação pV = nRT não é uma “lei sem condições”: ela é um modelo que funciona bem em determinados regimes físicos. Reconhecer os limites de validade de uma equação é parte essencial do pensamento científico.
9. Atividade segura de observação
Uma atividade simples pode ser feita com uma garrafa plástica vazia, uma bexiga e água em temperatura ambiente. Encaixe a bexiga na boca da garrafa sem esticá-la e observe que ela não infla facilmente, pois o ar dentro da garrafa ocupa espaço. Depois, com a supervisão do professor, pressione suavemente a garrafa e observe a alteração do volume de ar e da forma da bexiga.
A atividade não mede diretamente a equação de Clapeyron, mas ajuda a discutir que o ar ocupa espaço, pode ser comprimido e exerce pressão. Não use água quente, recipientes de vidro, fogo, tomadas ou recipientes fechados aquecidos.
10. Exercícios autorais
- Converta 20 °C e −13 °C para kelvins, usando 273 como aproximação.
- Um gás ocupa 4,0 L sob pressão constante a 300 K. Qual será seu volume a 450 K?
- Em uma transformação isotérmica, um gás ocupa 6,0 L sob pressão de 2,0 atm. Se o volume passar a 3,0 L, qual será a nova pressão?
- Um recipiente rígido contém gás a 300 K e 1,2 × 105 Pa. Se a temperatura aumentar para 360 K, qual será a nova pressão?
- Explique por que a pressão de um pneu pode aumentar após uma longa viagem, mesmo sem adicionar ar.
Gabarito
- 20 °C = 293 K; −13 °C = 260 K.
- V2 = 4,0 × 450/300 = 6,0 L.
- p2 = 2,0 × 6,0/3,0 = 4,0 atm.
- Como o volume é constante, p2 = 1,2 × 105 × 360/300 = 1,44 × 105 Pa.
- Durante a viagem, o atrito e a deformação dos pneus aquecem o ar interno. Com volume aproximadamente constante, o aumento da temperatura absoluta provoca aumento da pressão.
11. Perguntas frequentes
Posso usar graus Celsius na equação dos gases?
Não. Nas relações proporcionais entre pressão, volume e temperatura, use kelvins. A conversão é T = θ + 273,15.
Todo gás real é um gás ideal?
Não. Gás ideal é um modelo. Gases reais podem aproximar-se desse comportamento em determinadas condições, especialmente quando a pressão não é muito alta e a temperatura está suficientemente distante da condensação.
Quando devo usar a lei geral dos gases?
Use-a quando a quantidade de gás for constante e houver comparação entre dois estados. Se houver entrada ou saída de gás, a quantidade de matéria varia e é necessário analisar essa situação separadamente.
Por que um recipiente rígido aquecido aumenta a pressão?
Como o volume não muda, as partículas ficam mais rápidas com o aumento da temperatura e colidem com maior frequência e intensidade contra as paredes.
Pressão manométrica e pressão absoluta são iguais?
Não. A pressão manométrica é medida em relação à pressão atmosférica. Para utilizar a equação do gás ideal, normalmente é necessário converter para pressão absoluta.
12. Mini-quiz
- Qual unidade deve ser usada para a temperatura na equação dos gases?
Resposta
Kelvin (K).
- Na transformação isotérmica, qual grandeza permanece constante?
Resposta
A temperatura.
- Se o volume diminui à metade em uma transformação isotérmica, o que acontece com a pressão?
Resposta
A pressão dobra.
- Qual é a equação de Clapeyron?
Resposta
pV = nRT.
- Em um recipiente rígido aquecido, a pressão aumenta ou diminui?
Resposta
Aumenta, desde que a quantidade de gás permaneça constante.
O que estudar depois?
- Relacionar a equação dos gases ideais com a teoria cinética e a energia interna.
- Estudar trabalho realizado por um gás em gráficos de pressão versus volume.
- Avançar para a Primeira Lei da Termodinâmica e para as máquinas térmicas.
Referências para estudo
Conteúdo conferido com referências institucionais e educacionais.
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